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POR UMA CLÍNICA DA SUBJETIVIDADE CONTEMPORÂNEA*

Carmem Lemos

* Trabalho publicado em inglês no Festchrift in Honor of Stanley Keleman nos Estados Unidos e na Europa em setembro de 2006, traduzido e adaptado para esta publicação.

RESUMO

Este trabalho apresenta as idéias básicas que fundamentam o pensamento e o método da Psicologia Formativa, da constituição do cenário de seu surgimento a uma nova compreensão do projeto de ser ser humano como sistema vivo pessoalizado. Como constructo psicológico contemporâneo, a Psicologia Formativa concebe o sujeito corporificado como aquele que é criador do processo de criação e maturação do próprio corpo.


PALAVRAS-CHAVE

Contemporaneidade; corpo herdado; corpo formado; mudança de forma; esforço cortical-muscular voluntário; corpo pessoal; subjetividade.


“Seja qual for o caminho que eu escolher, um poeta já passou por ele antes de mim.” Sigmund Freud


A primeira referência que tive sobre Stanley Keleman foi com a dedicatória do livro Correntes da Vida de David Boadela, reverenciando o processo formativo. Era início da década de 90 e eu realizava estudos de formação psicoterapêutica em Biossíntese no Rio de Janeiro. Tal circunstância despertou em mim grande curiosidade, quanto à visão do processo formativo e ao caminho a que ele conduziria a clínica. Nesse tempo também iniciei a leitura de Anatomia Emocional (1992), que havia sido publicado no Brasil. Foi nesse contexto que a teoria formativa, com todo o seu “engenho e arte”, tomou-me de interesse e esperança.

Meu primeiro contato com o trabalho formativo foi através de Leila Cohn, recém-chegada da Califórnia, quando fundou o Centro de Psicologia Formativa do Brasil em 1995. No mesmo ano conheci Stanley Keleman no Brasil e depois, a partir do ano 2000, aprofundei esse encontro em Berkeley – Califórnia, quando comecei a participar dos eventos para profissionais e de sessões terapêuticas pessoais. Hoje me encontro imersa numa jornada de doze anos, que me preenche de muita satisfação. Venho construindo com eles uma parceria pessoal e profissional de crescimento e confiança para com o trabalho formativo.

Quando falo ou escrevo sobre a Psicologia Formativa, reconheço-me como um ser em processo, que aprende a buscar adequações para lidar com as transições da vida em suas formas evolutivas – biológicas e sociais e assim produzir meu estilo pessoal. Costumo apresentar a Psicologia Formativa a partir dos parâmetros do paradigma contemporâneo, que enseja reconhecer o desenvolvimento de processos globais e a promessa de criação de novos diálogos, sugerindo novas interações na relação sujeito-objeto e sujeito-ecologia, passo a passo com a fundação de um novo método para o saber.

Esse trabalho busca fazer uma especial celebração da vida e compartilhar com Stanley Keleman a minha admiração e agradecimento pela importante criação teórico-metodológica, que ressoa com os compromissos do processo evolucionário.

Pretendo aqui encaminhar a compreensão dos meus estudos e o aprofundamento da minha vivência como uma oportunidade de imaginar, sentir, intuir, refletir e concretizar a incursão do aprendizado pessoal com a prática profissional.
Desejo também abrir um caminho de conversação com profissionais da psicoterapia somática da comunidade do Brasil e da comunidade formativa de outros países, que são membros do grupo profissional Center for Energetic Studies em Berkeley, California.

Como contextualizo a Psicologia Formativa no cenário contemporâneo?
Tomo como referência algumas áreas de construção do conhecimento – a ciência e a tecnologia, a filosofia, a arte e a cultura – que constituem o cenário do final do século XIX e sua evolução até os dias de hoje para evidenciar sobre como estão funcionando as “coisas” no mundo.

A partir do final do século XIX, as teorias científicas e as invenções tecnológicas modernas, inerentes ao paradigma que avançou à luz da Razão, começavam a sofrer grandes abalos. A ciência, orientada para a prática e construída como critério de toda a verdade, não oferecia a abundância e o bem-estar prometidos à humanidade. Evidenciava-se então que o pensamento cientificista, fundado em visões reducionistas, materialistas e não-históricas, desconhecia sobre as questões primordiais da vida: a consciência e a subjetividade, o destino e o futuro.

Já no início do século XX, Darwin, Freud e os computadores, cada um a seu tempo, passava a integrar-se no cenário da ciência e da tecnologia. A revolução darwiniana, gerada a partir da obra de Charles Darwin, A Origem das Espécies pela Seleção Natural (1859), na qual está formulada a teoria da evolução, já se havia tornado aceita na biologia como grande contribuição à ciência, alterando mais uma vez o lugar tradicional do humano no universo. Por outro lado a revolução freudiana, fundamentada na teoria psicanalítica de Freud e a descoberta do inconsciente, formulada em A Interpretação dos Sonhos (1900), já fazia compreender que o ser humano é mais que uma racionalidade. O inconsciente, formado de paixões, pulsões e recalques, passou a instituir, junto ao consciente, a diversidade das ações e o mundo dos objetos, das relações e do conhecimento humano. E assim os primeiros computadores (1940) criaram a revolução da informação, que é na realidade uma revolução do conhecimento, pois o software é a reorganização do trabalho tradicional por meio da aplicação do conhecimento e em especial da análise lógica e sistemática. Os computadores assim trouxeram o advento da cognição, gerando grande impacto sobre a visão que se tinha do mundo e do próprio homem.
Fenômenos complexos emergiam desafiando a visão de um mundo estático e sujeito a leis deterministas e imutáveis, focalizado na dicotomia substância (matéria, estrutura, quantidade) e forma (padrão, ordem, qualidade). Uma tensão contínua e recorrente entre as conceituações sobre mecanicismo e holismo, máquinas e seres vivos e, por conseguinte, corpo e mente, acompanhava os diversos campos das ciências físicas, biológicas, humanas e sociais.

No entorno das ciências físicas, as dimensões de universalidade, objetividade e preditibilidade foram postas em questão pela Teoria da Relatividade, Física Quântica e Termodinâmica dos Sistemas afastados do Equilíbrio ou Estruturas Dissipativas. No âmbito das ciências biológicas, emergia de um lado a Engenharia Genética, levantando novas questões sobre a natureza da vida e a possibilidade de ingerência nesse processo e de outro lado a Bioética, partilhando com a Filosofia para dar contorno a tantos novos desafios. Já no âmbito das ciências humanas e sociais, emergia uma concepção matemática e uma epistemologia complexa originária da Teoria dos Sistemas, da Cibernética, da Inteligência Artificial, da Teoria da Informação e das Neurociências. Nesta perspectiva a ciência política trazia o conceito de uma nova cidadania, que surgiu a partir dos movimentos sociais, do papel das subjetividades e da emergência de novos sujeitos sociais, marcando o cenário político, como estratégia de construção democrática, que enfatiza a transformação cultural.
A filosofia, imbuída dos ideais e da ideologia da ciência e da tecnologia, durante três décadas (1880-1913), viveu uma espécie de apogeu. Muitos filósofos pareciam ter atingido verdades inabaláveis e acreditavam ver seus sonhos concretizados através do pensamento kantiano.
Nessa época eclodiu a Primeira Guerra Mundial com massacres absurdos e negociadores incompetentes. O sentimento de horror à crueldade e o redesenho do mapa do mundo gerou um estado caótico no qual se exacerbavam as frustrações. Era a morte, a derrota, a perda dos valores europeus, a decadência de grandes impérios, a impotência da ciência e da tecnologia.

O pensamento filosófico enunciava uma angústia profunda, uma vez que se revelava incapaz de identificar um aprendizado claro da tragédia. A filosofia alemã dos anos 20 transmitia o eco das angústias coletivas, com exceção dos neokantianos e dos integrantes da corrente fenomenológica, que emerge com Bertrand Husserl e Martin Heidegger, apresentando sua obra Ser e Tempo (1927). Este questionava os próprios fundamentos da atividade filosófica – a indagação do sentido do Ser. Fazia uma provocação magistral para atentar ao que existia à volta como também para o que se dava na própria experiência interna. Compreendia-se que a experiência vivida e a reflexão sistemática não podiam efetivamente estar cindidas para que a totalidade pudesse gestar o senso de futuro como promessa de uma nova era do espírito.

Assim na segunda metade do século XX, a filosofia buscava novos critérios para uma nova maneira de indagar, refletir e vivenciar a existência no mundo, esvaziando-se do seu próprio objeto de pesquisa – o ser humano e assim a idéia de humanidade.

A arte contemporânea em pleno século XX, transitando pelos caminhos da ciência, da tecnologia e da filosofia, caracterizava-se pela liberdade na diversidade e pela abertura no fechamento.

Constituir espaços contemporâneos requer a investigação das diversas tecnologias que estabelece e controla o próprio espaço da arte. Aqui o mundo da obra e o mundo em comum criam uma mutabilidade incessante e neste sentido a arte e a realidade mantém suas peculiaridades e suas generalidades. O desafio da arte contemporânea consiste, portanto, em estabelecer conexões entre princípios, conceitos, temas, técnicas, materiais e em especial entre o modo de usar a linguagem como foco da experiência.

A expressão do artista faz-se no tempo e no espaço livre e também entre seres humanos com a complementação das tecnologias, da diversificação de recursos, performances, instalações e adaptações interartísticas (pintura, escultura, teatro, dança, música, vídeo, cinema, literatura, arquitetura). O novo sentido, que o artista inventa para compreender o mundo, muda a forma de as pessoas conceberem o real. Devido a novos critérios ou à falta deles, a liberdade da diversidade passa do patamar do êxtase para a ansiedade gerada pela liberdade da abertura.

Enfim a arte contemporânea está na experiência que a totalidade proporciona – totalidade que é dinâmica e vista por perfis, dependendo da expressão de quem olha e do sistema em que está posicionado, estando imbricados nela sujeito, objeto, espaço, tempo, enfim invenção-criação. Pode-se dizer com Otto Rank em Art and Artist: Criative Urge and Personality Development (1989), que a criação artística consiste justamente em algo que rompe com as trajetórias do individual e do social, fazendo desse modo um tipo especial de conexão com o plano do Universo.

A cultura, como formação do espírito e desenvolvimento da personalidade, compreende propostas, que oferecem ao indivíduo motivos de viver bem praticando mais a generosidade que a segregação. A cultura contemporânea provém de uma trama multidimensional dos gostos, sensibilidades e inteligências, cujos fios estão sempre prontos para unir-se e distinguir-se como redes sucessivas de relações. Fortemente marcada pelos impactos e demandas da ciência, da tecnologia, da filosofia e da arte, a cultura contemporânea ficou comprometida com o modelo da globalização econômica, política e social, por isso mesmo implicada nos princípios e relações da racionalidade científica.
Esse cenário representava não só uma espiral vibrante de desenvolvimento mas também de uma trama complexa do conhecimento que diz respeito a uma dimensão infinita de indagações e confrontos com novas verdades e incertezas. Eram novos campos de aplicação que geravam interferências e traziam à tona indeterminações, aleatoriedades, diferenças e descontinuidades para além do princípio da simplificação e da redução. Trazia o enfrentamento dos paradoxos da complexidade do real na mira do uno e do múltiplo, do todo e das partes, da ordem/organização e da desordem/desorganização, do específico e do geral, do acaso e do estabelecido, do tempo e do fenômeno, como componentes da análise científica com possibilidades – mesmo que ambivalentes – de nortear o futuro da humanidade.

Anunciava-se enfim a concepção de um novo paradigma complexo, capaz de incluir uma reflexão ética quanto à Criação em sua natureza evolutiva como também quanto à sua natureza factual. A busca de convergência gerava uma dinâmica processual para o sujeito, o objeto e a ecologia, constituindo a noção de uma nova perspectiva biológica e psicossocial.

Essa perspectiva, bem focalizada por Edgar Morin em Science avec Conscience (1990), continha princípios de uma ciência da organização e o macro-conceito de sistema – interações – organização - retroação reguladora, donde se entende o seu enraizamento na física e na biologia, permitindo fundamentar a relação autonomia/dependência como complexidade primordial.

O ser humano perante a complexa rede de signos, símbolos, processos e saberes vive o estranhamento de um mundo assustadoramente mutante. A globalização sócio-econômica, a tecnologia avançada, a comunicação à distância, a virtualização das relações, a degradação crescente do ecossistema, todos, são injunções implacáveis. Aqui o drama humano estabelece-se no dilema de criar e de consumir compulsivamente. E no meio desse turbilhão de intensa pressão, o ser humano adentra pela criação de projetos ameaçadores da Vida e pelo consumo de produtos e drogas, desenvolvendo vivências nostálgicas e depressivas, crises de abstração e dissociação, acentuadas pelo pavor da exclusão.

Os ideais da contemporaneidade contudo estão refletidos na relação do homem com o universo e com seus pares, nos seus valores estéticos e éticos, nas crenças religiosas, nas formas de produção de conhecimento, nos modelos de convivência e gestão da sociedade, nos sistemas econômicos e políticos, nos regimes de governo, enfim, em todas as esferas da manifestação humana.

A visão contemporânea, imbricada no pensamento complexo, enuncia uma idéia de subjetividade diferentemente da representação clássica, contudo compreendendo também o caráter dinâmico, relacional e conversacional, que funda o ser humano em sua dimensão ôntico-ontológica.

Acredita-se portanto que a ciência e a tecnologia, a filosofia, a arte e a cultura ensinam à clínica e à educação a formar novos modos de subjetivação. Essas crenças estão implicadas na compreensão do processo auto-organizador do sistema da Vida e, por conseguinte, na inclusão das estratégias educativas do método do aprender-a-aprender, fundamentado no conhecimento e não saber da experiência.

A construção da clínica e da educação na contemporaneidade, por tudo isso, faz-se mediante diversas formas de expressão e de comunicação, construindo outros estilos de aprender a viver gerenciando contingências. Reconhece-se que a intuição, a imaginação, até mesmo a paixão oferecem uma dimensão espontânea e reflexiva da experiência humana, implicando na construção de um amplo repertório de respostas, criador de um mundo subjetivo e dos modos de subjetivação do homem ocidental. Sabe-se que delas surgem novos modelos para lidar com os desafios da desorganização de uma sociedade fragmentada e caracterizada pelo individualismo hedonista, desemprego, fome, doenças, guerras e mortes prematuras.

Foi no “caldeirão fervente” dos anos 60, o lugar da revolução do pensamento e dos costumes do ser humano civilizado – o chamado movimento da contracultura – que Stanley Keleman, americano de Nova York, no auge da sua adultez jovem, indagava-se sobre a saúde e a educação das pessoas e articulava nova concepção sobre corpo e linguagem. Foi nessa direção que ele construiu sua jornada científica, filosófica, artística e cultural envolvendo a clínica e a educação.
Mergulhado especialmente na Teoria Evolucionista, Biologia Celular, Neurofisiologia, Psicologia Existencial, Fenomenologia Heideggeriana e na Cosmologia Contemporânea, Keleman concebeu o seu trabalho em torno dos fundamentos da formatividade.

Assim o pensamento e o método formativos, imbuídos da importância do campo de experienciação e talhados pela influência do cenário contemporâneo, revelam o estilo pessoal do pesquisador apaixonado, do clínico dedicado e do artista singular, somado ao mestre verdadeiramente interessado pelo percurso dos seus discípulos.

Como vejo a Psicologia Formativa co-formando a compreensão da subjetividade contemporânea ?

Há cem mil anos, o organismo humano em seu estágio de homo sapiens sapiens, vem desenvolvendo sua capacidade adaptativa, continuando a mesma forma biológica e a mesma estrutura cerebral trina, que organiza e reorganiza uma gama diversificada de novas conexões neuronais, numa criação sucessiva de estruturas sempre mais complexas.

Há cem anos o ser humano vem investindo em tentativas de decifração da complexidade do cérebro, da consciência humana e do mistério que se encerra nele mesmo como organização biológica, sistema cibernético e sistema eventualizado – sendo este capaz de dar conta do evento: o acidental, o aleatório, o singular, o acaso, o histórico, o inevitável existencial.
Há quarenta anos Stanley Keleman vem aprendendo e incentivando seus discípulos e clientes a descobrir como pessoalizar o self somático herdado, através da experiência de influenciar e receber as formas que se validam no presente e evoluem para a organização de um futuro pessoal.

A visão formativa fala da experiência do corpo como uma realidade sistêmica e complexa, que se produz em si mesma e em comunidade, seja de células, seja de indivíduos para manter a ordem viva. Keleman acredita que o corpo humano é parte de um sistema maior e que sua existência implica em formar uma história subjetiva a partir do corpo herdado que vive em cada um e do corpo social com o qual se aprende sempre.

Evidencia-se aqui a concepção do princípio da auto-organização, que, não é senão, a aptidão da Vida para criar formas e estruturas novas como um processo contínuo. Por isso mesmo pode-se encontrar em Keleman uma significação própria para esse princípio: “a formatividade é uma cornucópia de desejos para alcançar o enriquecimento e o preenchimento” (1975:13).

Trabalhar com o pensamento complexo, no exercício da prática psicológica e educativa e no contexto de uma explosão maciça de informações (percebidas como parte e como todo ou como partícula e como onda), exige um novo posicionamento filosófico e existencial e metodológico. O pensamento complexo abrange o exercício da multidimensionalidade do humano, enquanto realidade bio-psico-sócio-cultural-histórica, possibilitando uma flexibilidade mais acolhedora à sua realidade somático-emocional. Então o corpo contemporâneo modela-se na transitoriedade e na fugacidade da evolução permanente e assim abarca o sentido de totalidade, que evolui contando uma história sentida e temperada pelo devir.

A Psicologia Formativa, fundada nos princípios do processo evolutivo, desenvolve-se através de uma “ciência da organização” e de “uma ciência do devir”, que se evidencia na complexidade dos sistemas vivos. Como constructo psicológico contemporâneo, concebe o sujeito corporificado como aquele que é criador do processo de criação do próprio corpo.
Convidando o ser humano a assumir a missão primordial de participar da evolução, Keleman consolida a idéia do projeto do corpo como um fenômeno de construção de uma realidade em múltiplas camadas, orquestrada pela própria capacidade de formar continuamente conexões e contato. Assim o corpo, constituído pelos corpos biológico, social e pessoal, cria “um reflexo de nós mesmos, um sentido de ‘eu’ ou ‘mim’” (1987:39) como um projeto do vir-a-ser , servindo aos “corpos da vida” (2001:94).

Essa concepção explicita a noção da arquitetura do corpo, que começa pela formação das membranas, espaços e estruturas de contenção e prossegue com a sustentação das estruturas mais amplas e mais complexas, que se continuam a desenvolver, formando o projeto do adulto – do corpo embrião ao corpo envelhecendo.

Assim, no continuum do desenvolvimento, a organização, a reorganização e a auto-regulação do corpo vivo evidenciam uma espiral de grandes e pequenas transições (um ciclo de mudanças ocorrentes nas grandes passagens e nos eventos cotidianos da vida). Tal espiral cumpre os impulsos espontâneos do corpo instintivo e os impulsos-pulsos do esforço voluntário do corpo pessoal, que se molda em busca de maturar e aprofundar a sua humanidade somática. Eles formam modos de subjetivação por entre os desafios e demandas que ocorrem no caminho do destino de cada um tornar-se quem se é.

A construção da subjetividade é o continuum particular do sujeito, que é tramado nas interações, retroações, distinções e reorganizações dos tecidos e dos vínculos, formando fronteiras, limites e enraizamentos, e gera o senso de identidade. A subjetividade é o reconhecimento da criatura humana como criadora do processo que concerne a sua criação. A recursividade do processo de criação coloca o sujeito no foco da teia do seu próprio mundo interno e no jogo das relações com o mundo externo. Tal contingência confere a função do self individual, que é autônomo em si mesmo e dependente do ecossistema. Então, a organização biológica e a organização social são unidades que se conjugalizam, gestam e dão a luz à totalidade - que é a organização pessoal ou a própria identidade humana. O eu-sujeito corporificado é o eu-sujeito da própria experiência de corpar – que forma-e-reforma a pessoalidade continuamente.

A subjetividade gera o chão criador da realidade existencial que é a própria realidade somático-emocional. Diz Keleman, referindo-se à gênese do corpo a partir das camadas embriológicas: “a pulsação é o self básico. É uma corrente ondulante que gera desejo, sentimentos, idéias, ações. (...) Ela constrói uma camada externa como membrana e continente, separando o exterior do interior. Desse modo, a corrente estratifica-se e o exterior pode falar com o interior. Nasce assim o solilóquio, o diálogo, o feedback. Emerge a dimensão humana. O exterior em diálogo com o interior cria uma resposta que estabiliza associações e memórias, conceitos e ações e forma o senso pessoal. A formação de um self individual é uma operação monumental. A formação de outra camada regula uma existência dual e personaliza a vida impessoal. Temos uma tríade em vez da díade” (1987:42).

A Prática de Corpar, como método clínico-educativo, constitui-se na estratégia de ação da Psicologia Formativa e propõe-se ensinar a pessoa a influenciar e aprofundar o processo organizador biológico não-volitivo e herdado, associando ao processo formador volitivo e aprendido. Tal associação remete à compreensão dos processos de cooperação entre corpo-cérebro e cérebro-corpo e sua auto-regulação.

A prática do método formativo, cujo foco está no esforço muscular voluntário, gera a consciência de que a vida cria, mantém e muda a forma a partir da variação da pulsação, através da qual o processo vital opera. São as ondas rítmicas que revelam padrões pulsáteis de aceleração, imobilização e desaceleração, configurando-se em padrões de motilidade, porosidade, rigidez e densidade.

Em cinco passos, o método se processa à maneira de uma sanfona, que se abre e se fecha através da gradação da intensidade, imitando o modo natural de a pessoa funcionar e revelando seus padrões internos de expansão e contração. Utilizando a estrutura cérebro-corpo-cérebro, o ser humano concretiza o princípio da reorganização, criando formas distintas e gerando novas experiências. São experiências de sobrevivência de natureza visceral e espontânea e são experiências que podem ser moduladas pelo aprendizado do esforço cortical-muscular voluntário que desenvolvem a maturação do corpo mais maduro e a criação de uma linguagem pessoal. O estímulo emocional, a inibição e a expressão dos sentimentos são parte do auto-conhecimento e do auto-gerenciamento, consolida-dores do processo auto-formativo ou de subjetivação. A auto-regulação dos processos somáticos, que se realiza através da maestria do esforço muscular voluntário, constrói portanto a multiplicidade das formas anatômicas, físico-químicas e comportamentais como estâncias corporais e posturas. É o repertório de sensações, emoções, sentimentos, memórias e um mundo de sonhos que permeiam a sensação de pulsar, vibrar e fluir.

O sujeito adulto dispõe de estruturas somático-emocionais complexas, que evidenciam seus modos de interiorizar e exteriorizar, de aproximar e distanciar-se do outro como meio de auto-sustentação de um espaço privado e de uma ética de preservação da própria humanidade. O sujeito adulto dá conta da própria vida e enraíza-se no sistema maior da Vida, criando uma história da sua organização originada da luz de cada um que deseja ser quem se é.
Enfim “os cincos passos são exercícios do pensamento imaginativo, das expressões emocionais e das atividades musculares embebidas pelas imagens visuais, auditivas, táteis, cinestésicas e proprioceptivas da existência somática” (1995:36). Esse processo se faz repetindo e repetindo somática e voluntariamente e, portanto, subjetivando sempre. Nesse percurso os humanos formam-e-reformam-se, construindo agora-aqui-e- ali qualidades de presença somático-emocionais efetivas – os modos de subjetivação do processo de maturação.

A perspectiva de desenvolvimento sustentável do pensamento formativo, assentada nos fundamentos dos modos de subjetivação contemporânea, cria uma nova postura voltada para uma ética do comportamento e do sentimento. Ressoando com Schnitman: ”sentir-se partícipes/autores de uma narrativa, da construção dos relatos históricos, é uma das vias de que dispõem os indivíduos e os grupos humanos para tentar atuar como protagonistas de suas vidas, incluindo a reflexão de como emergimos como sujeitos, de como somos ‘participantes de’ e ‘participados pelos’ desenhos sociais” (1996:17).

Como a Psicologia Formativa influenciou o meu trabalho pessoal e profissional?
Aprendi que Keleman propôs-se a experienciar a si mesmo. Como um ser em processo, inspirou-se no investimento e na diversidade do aprofundamento dos modos de usar o próprio corpo, fazendo crescer a vida como sujeito e testemunha da Criação. Suas palavras assim o dizem: “ao longo dos anos, comecei a ver – graças ao meu background científico e filosófico – que a teoria da evolução era a chave para entender a natureza humana (...), que o corpo, enquanto Natureza, procura preservar suas respostas bem sucedidas e transmitir biológica ou culturalmente para seus filhos, amigos, etc.” (1997:04).

Formulei o meu aprendizado da Psicologia Formativa, emoldurando-o com alguns estudos sobre a Ciência da Organização, Cosmologia Contemporânea e a trajetória histórica da Psicologia como ciência. Compreendi o percurso dessa visão teórico-metodológica, enveredando pelos caminhos da Biologia, da Neurociência e atualmente da Filosofia. Tempero todas as experiências com a esperança e a fé na expansão de mim mesma e na Criação. Assim desejo compartilhar como faço a minha história pessoal, imprimindo suas características no meu trabalho profissional.

Meu trabalho formativo pessoal vem influenciando constantemente a minha maneira de saber, conhecer, reconhecer e gestar uma maneira de sentir e ter-me no mundo com a minha constituição genética ao lado da coragem de recriar meu estilo pessoal. Gerenciando situações, assumo mais riscos, medio o medo, estabeleço lutas para modelar o desconhecido e acolho a ordem maior – que não se pode controlar.

Aprendo a cada passo com o método formativo sobre a dinâmica das minhas séries somático-emocionais. Investigo continuamente a relação que teço entre os comportamentos reflexo e voluntário, autônomo e dependente, herdado e aprendido e as demandas que recebo e faço ao outro. Busco encarnar as prazerosas experiências recebidas de mim mesma como fruto da produção do aquecimento no meu próprio calor, do ganho de firmeza, do aconchego na maciez e na sustentação nos meus limites e raízes. Empenho-me em maturar a mulher que sou para assumir experiências e papéis ainda não vividos. Enfim disponho-me a receber-me e olhar-me no meio do trabalho da vida entre tantos desafios e idas-e-vindas. Tantas vezes eu me identifico com a experiência do artista e adentro pelo mundo das minhas expressões lúdicas e amorosas, pretendendo nos prazeres e adversidades vir-a-ser realmente um artista de mim.

Aprendo ainda mais a receber o ser humano – o meu cliente, na sua complexidade de experiências e desejos, dor e sofrimento, altos riscos e grandes perdas, enfim ignorâncias e sabedorias, com potencial de aprender a conhecer e gerenciar suas regras de funcionamento e assim criar novas fronteiras e relações. Aprendo sempre a experienciar o dom de estar pulsante para trabalhar com ele nos diálogos celulares ancestrais e nas expressões mais sutis de suas novas formas motéis e porosas. Nesse espaço de corpos vivos aproprio-me junto de diversas forças que conversam no meu corpo.

Experiencio a gratificação de co-corpar com a comunidade humana em seu destino solidário e fraterno no meio de tantas adversidades.

Enfim tenho a Psicologia Formativa como grande recurso para o meu processo de subjetivação.

Penso também que essa narrativa traz muitas implicações para a sustentação da Vida pois dar conta dela, enquanto vivo, implica em nunca cessar de dialogar e sempre ousar o desapego.

Concluo finalmente com os versos, do meu poema Cantos de Movimento e Escuta, 2006:
Acordes das formas despertam
mistério da existência encarnada.
Na musicalidade do pulso
com a vibração das correntes
a poesia canta o meu fluxo.


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CURRICULUM RESUMIDO
Psicóloga, educadora, consultora de Desenvolvimento Humano. Mestre em Letras. Especialista em Dinâmica de Grupos e Desenvolvimento de Recursos Humanos. Tem formação terapêutica e educativa em Psicodrama, Constelações Familiares, Experiência Somática e Psicologia Formativa. Estuda com Leila Cohn no Centro de Psicologia Formativa do Brasil desde 1995, tornando-se membro profissional associado em 2000, quando começou a participar também dos workshops de Stanley Keleman e do grupo profissional do Center for Energetic Studies em Berkeley, California – USA. Mantém prática clínica com adultos e grupos. Coordena grupos educativo-terapêuticos temáticos e grupos de estudo.


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